sábado, 4 de dezembro de 2010

Indígena tira carteira de identidade aos 76 anos

Com sorriso contagiante, dona Brigida André, de 76 anos, se destacava na multidão que lotou o auditório do Tribunal Regional Eleitoral em Mato Grosso do Sul, na última sexta-feira (3). Todos estavam reunidos pelo mesmo motivo: a entrega da documentação indígena. Moradora de Água Bonita, reduto de indígenas da etnia Terena, em Campo Grande, a dona Brigida ainda não tinha Carteira de Identidade. Só que a dela, como a de todos os indígenas presentes, é diferenciada. Além dos dados do documento trazem também informações sobre a aldeia e etnia. Motivo de orgulho para dona Brigida. Esse modelo faz parte de um projeto piloto “Cidadania, Um Direito de Todos” que acontece no estado, que tem a segunda maior população indígena do País.

Dona Brigida foi retirar o documento acompanhada da neta Maria Auxiliadora, de 27 anos, que também não tinha Certidão de Nascimento. As duas fizeram registro da documentação após um multirão que mobilizou diversos órgãos governamentais. Como elas, cerca de 8 mil indígenas urbanos de Campo Grande, de acordo com estimativas do Conselho Nacional de Justiça, ainda não possuem o Registro Administrativo Nacional Indígena (RANI), RG (Registro Geral), CPF (Cadastro de Pessoa Física), Certidão de Nascimento e Carteira de Trabalho.

A primeira ação foi realizada na Escola Sulivan Silvestre, localizada dentro da primeira aldeia urbana do País, a Marçal de Souza, no Bairro de Tiradentes, em Campo Grande. A cacique dessa aldeia é a Enir da Silva Bezerra, de 55 anos, também participou do evento e retirou a segunda via do RANI. “Tem gente que não tem dinheiro para ir a um cartório retirar um documento e na hora que consegue um emprego tem dificuldade. Não tem carteira de trabalho, RG, CPF, e não consegue abrir uma conta. Acaba perdendo o emprego”, afirma.

Segundo o diretor de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável, Aloysio Guapindaia, a Funai tem uma dívida histórica com as populações indígenas. “Estar em dia com a documentação é o primeiro passo para termos acessos aos benefícios e ações do governo. Quero aqui afirmar que a Funai vai continuar empenhada em promover multirões com os demais órgãos para que todos tenham os seus documentos”, declara o diretor que participou do evento de entrega da emissão de documentos.

Multirões - No total 1.070 índios foram cadastrados no projeto. A Funai atendeu a 220 índios para a emissão do RANI e o Cartório de Registro Civil atendeu 258 pessoas. Foram emitidos também 217 CPFs e 216 RGs.

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